Thursday, January 20, 2011
O Moleque e a Preguiça
Gritando pelas ruas veio um moleque. Veio o moleque berrando, "Vendo preguiça! Preguiça à venda!"
Jiguê, com fome e com raiva, disse pro benjamim: "Vá por ai."
Mas Macunaíma, primoroso, falou, "Vou à procura da pesquisa da preguiça!"
Seguiu o moleque pelas avenidas e pelos bulevares o dia todo. Enfim achou na Rua Lopes Chaves.
Arfando, de mãos nos joelhos, Macunaíma apenas pôde perguntar, "Qual seu nome, rapaz?"
"Mário."
"Como é que é que 'tá vendendo preguiça? Tinha sabido dessa novidade eu também vendia."
"O senhor tem preguiça também? Onde?"
"Onde a sua! Não estou vendo preguiça nenhuma, não!" O herói estava zangado. "Você vem aqui correndo e gritando, e eu seguindo feito arara maluca!" Assim foi a origem da expressão, 'ficar uma arara.'
O moleque pelou dentes de orelha a orelha e indicou pela avenida. "Lá longe ela vem devagar."
Macunaíma espreitou à distância um pequeno vulto pendurado dos fios elétricos. "Essa preguiça nunca vai chegar."
"Isso," disse o Mário. "A preguiça não chega. Ela só é."
"Então quem vai querer comprar preguiça? Nem dá para comer bem."
"Ela é muito produtiva. O senhor não percebeu que a preguiça é essencial para uma civilização tropical como a nossa?"
"Nada disso, molequinho. Essencial só é comer, brincar, dormir. A preguiça até impede."
O Mário deu uma grande gargalhada. "Pois sim! E o único que sabe fazer a preguiça! De tudo isso ela dá lições. Não perca a oportunidade de compra!" E o moleque tinha razão.
"Me dá em 50 cacaus."
"Cacaus?"
"Não foi você que falou em civilização tropical?"
"Então 200."
"O que é isso? 100."
"150. A preguiça não é barata."
"100! Nem um cacau a mais!"
"Então não vendo não. Vou continuar tomando conta da preguiça."
Macunaíma, muito aborrecido, proferiu uma das favoritas de sua coleção de palavras-feias. Fingiu indiferença e se foi embora. Mas escondeu-se detrás de um poste de luz e esperou que o Mário saisse. Depois foi correndo correndo até onde pendurava a preguiça, já com farta fome, e tirou sua zarabatana. "Fácil que nem pescar com cunambi," disse o herói.
Deu na preguiça, preguiça caiu. Mas, deitada na rua, ela não morreu não, ela crescia e crescia até se tornar o Ai-Pódole, Pai das Preguiças. Ficou do tamanho de um prédio, de garras enormes, rabo como um trem, uma preguiça pré-histórica! Agitou o rabo derrubou um bonde cheio de italianos, alemães, japoneses, bolivianos, espanhóis, libaneses, nordestinos e um caboclo todos numa confusão de pernas pro ar no meio da rua.
Macunaíma ficou estarrecido. Berrou pelo moleque, "Mário! Mário! Olha só a maldição que você fez! Grandíssima bobagem sua civilização tropical!"
Mas o Mário lá estava entre a humanidade oceânica. Respondeu, "De jeito nenhum! O senhor robou, agora a preguiça é do senhor!" E o moleque Mário se foi embora pra fazenda de um amigo em Araraquara, se deitar numa rede compor rapsódia.
Macunaíma olhou pro animal descomunal e coçou a cabeça. "Ai, que preguiça!"
No meio do pavor dos transeuntes e o caos vial apareceram Maanape e Jiguê na procura do herói. No entanto o Ai-Pódole comia tranqüilamente as flores do balcão do sétimo andar do Hotel Versailles.
Falou Maanape. "'Ta vendo, irmão? Essa sua preguiça já cresceu demais." E jogou na ponta da garra do Ai-Pódole um pó mágico que preparasse.
O Ai-Pódole, de supetão, encolheu e encolheu e ia se encolhendo até ficar a preguicinha que vendia o moleque. Maanape era feiticeiro. Então recolheu a preguiça da rua e levou pro Ibirapuera.
Falou um italiano, "São Paulo é uma barbaria."
Falou um alemão: "Os brasileiros são bárbaros."
Porém Macunaíma não agüentou e gritou, mãos nas costas, pros paulistas de todas as cores e de todos os tamanhos, "A preguiça é essencial para uma civilização tropical como a nossa!"
A multidão apupou e se dispersou pro banco, mercado, correio, armazém.
Macunaíma ficou zombado. Fez rede da bandeira paulista no balcão do Hotel Versailles, se deitou, e começou a mijar quente nos pedestres lá embaixo.
Jiguê, faminto, foi caçar anta à beira do Tietê. Jiguê era muito bobo mesmo.
Wednesday, March 3, 2010
cru & cozido, nu & vestido
Wednesday, July 8, 2009
The Aviary
Primeiro foi a gritaria da papagaiada imperial:
Amo el canto del cenzontle,
pájaro de cuatrocientas voces
pero amo más a mis hermanos:
We’re three caballeros, three gay caballeros
They say we are birds of a feather
X-polynation:
Colibird, Humming-flor, Beijabrí
Minha terra tem palmeiras
onde canta o sabiá;
as aves, que aqui gorjeiam,
não gorjeiam como lá:
¡Cuac! ¡Cuac! ¡Acucuac!
Um papagaio verde de bico dourado
principiou falando numa fala mansa,
muito nova, muito:
Ya viene viene la golondrina
Viene viene la golonchina
va que vuela la golonmaya
pero el cielo prefiere el rodoñol
su niño querido el rorreñol
el roquetzal, que vive en tu escudo
el rorroner, the coyote’s after you,
Roadrunner, if he catches you,
transfórmate:
¿Altazor o Altazur?
A hawk or a handsaw?
Toucan or not tucán, that is the question.
A guacamacarara
foi pra Araraquara
deitou numa rede e compôs
Cuculzornaíma, o Un viaje en hamaca
Maculcantazur, O Herói sem Nenhum Pudor
Altacunaimacán, Pluma envuelta en serpientes.
Ya los pajarillos cantan:
Qui-qui-ri-doodle!
1 pássaro na mão > 2 voando
Pájaro cascabel, pájaro chupamiel,
chupa la bella cracker de miel
Polly wants a galleta maría
donde el águila paró
y su estampa dibujó
el cóndor pasa,
se la pasa criando cuervos
entre cuatro zopilotes
volverán las oscuras golondrinas
Little bird, little bird, ‘neath the cinnamon tree,
¡Cómo canta la zumaya!
¡Ay, cómo canta en el árbol!
¡La rama en que cantaba el tecolote!
Little bird, little bird, do you sing for me?
Pajarillo verde, quoth the Raven, ‘Nevermoré,’
Pajarillo verde, ‘Nevermore’ voy a llorar
The Trumpet of the Swan:
¡Cuac! ¡Acucuac!
Make Way for Ducklings!
¡GuaCuac! ¡MaCuac! ¡AraCuac!
Eram centenas e centenas de colheireiras cor-de-rosa…
Tive uma tal sensação de lindeza,
fiquei tão comovido,
de repente deitei no chão da lancha…
References: Above all, Vicente Huidobro in structure, style, and a few well-known verses, as much as Mário de Andrade, to whom I give first, last, and middle words here, and from whom I borrow “hallucinated rhapsody” from different titles. Strongly present: Miguel Angel Asturias, whose Guacamayo squawks throughout, and Oswald de Andrade, whose general idea of antropofagia informs the methodology here. Cameos: William Shakespeare (with and without anthropophagy by Oswald de Andrade), Nezahualcóyotl, Walt Disney, Gonçalves Dias, Nicanor Parra, Gustavo Adolfo Bécquer, Pepe Guízar, Federico García Lorca, E. B. White, Robert McCloskey, Ignacio Manuel Altamirano, Joe Darion, Edgar Allen Poe, Warner Bros., José Joaquín Palma and José María Bonilla Ruano, y varias frases y canciones de dominio público.
Thursday, June 25, 2009
Esboços do Nu Modernista
O nu literário às vezes retrata-se num contexto natural, favorável aos objetivos da filosofia naturista. O seguinte são idéias referentes a alguns exemplos do nu natural num contexto especificamente brasileiro: o modernismo. Oswald de Andrade, por exemplo, contextualiza o nu com versos “digeridos” dos colonizadores portugueses. Eis o “erro de português”:
Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português
Já no começo do modernismo, no esforço de revalorizar a autêntica cultura brasileira, Oswald apontou para o aspecto positivo do nu, porém um nu potencial, não realizado no desigual intercâmbio das tradições. Nestes versos o clima parece ser o único fator decisivo na luta da roupa, mas como sabemos, na realidade a religião e os costumes europeus foram as causas da abolição da prática indígena de andar despido. Em mais um poema, “as meninas da gare,” Oswald volta a este momento inicial de contato entre culturas para desenvolver o efeito da nudez natural dos indígenas sobre os europeus. Os versos, ironicamente traspostos da Carta de Pero Vaz de Caminha (de 1500) a um cenário urbano moderno, cuestionam jocosamente o preconceito importado da vergonha:
Eram tres ou quatro moças bem moças e bem gentis
Com cabelos mui pretos pelas espadoas
E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas
Que de nós as muito bem olharmos
Não tinhamos nenhuma vergonha
As “vergonhas” expostas aqui curiosamente negam, dentro dos mesmos versos, a possibilidade da “vergonha” católica na que foram criados os colonizadores. Desajeitavelmente não foi possível a inteira erradicação deste conceito do pecado original, mesmo que alguns poucos europeus adotaram o estilo naturista dos povos autóctonos. Tanto na poesia do Oswald quanto nos seus manifestos “Pau-Brasil” e “Antropofagia,” a nudez forma parte da cosmovisão indígena revalorizada pelos autores e artistas do movimento modernista.
Mário de Andrade também utiliza o nu natural, de uma maneira que afirma o caráter pluricultural do povo brasileiro. Na sua rapsódia Macunaíma, o protagonista (que quase não fala) e os dois irmãos dele saem do banho que tomaram na marca do pezão de São Tomé, transformados nos fenótipos característicos do país: branco, vermelho e negro: “E estava lindíssimo na Sol da lapa os três manos um louro um vermelho outro negro, de pé bem erguidos e nus. Todos os seres do mato espiavam assombrados.” Altamente representativa da origem natural do país, a fauna indígena aparece numa lista que faz Mário de nomes e variedades das espécies e dos ruidos que faz cada uma. Os animais “assombrados” começam a fazer barulho até que Macunaíma “botou as mãos nas ancas e gritou pra natureza: ─Nunca viu não! Então os seres naturais debandaram vivendo e os três manos seguiram caminho outra vez.” É somente depois deste bautismo (que é também metamorfose e renascimento) acompanhado pelos irmãos nus, fenotipicamente diversos, e acompanhado também pela “fala” natural dos animais do mato, que Macunaíma vai começar falar com verdadeiro sotaque e vocabulário brasileiros. Nesta cena, e também na exagerada cerimônia macumbeira num capítulo posterior, a nudez é condição imprescindível para a aproximação à essência puramente brasileira.
De maneira semelhante, as famosas imagens de Tarsila do Amaral, como A Negra e Abaporu, realçam a importância que deram os modernistas ao nu como expressão autêntica. Nestas imagens e outras semelhantes, o corpo é muitas vezes exagerado, favorecendo certa parte deformada, num intento de estender, de esse jeito emblemático, os limites da representação corpórea do país. O corpo nu foi para os modernistas um conceito atávico, ideal para encarnar a liberdade artística da criação duma nova e orgulhosa identidade nacional.
Tuesday, May 19, 2009
De Andrades
Oswald: Ô, Mário, como vai, o que comeu?
Mário: Quem comeu foi você, porém não leu.
Oswald: Ninguém lê tanto quanto você.
Mário: É mesmo assim, isso tem quem crê.
E aquela segunda dentição, caiu?
Oswald: ’Tava faltando você tirar o fio!
Só a antropofagia nos une, então.
Mário: E mais, segundo dizem, Um Só Coração.
Quando você vai devolver meu muiraquitã?
Oswald: Peguei não, Mário, o meu tem forma de rã.
Mário: Sapo boi, deve dizer: você foi quem pagou os apupos.
Oswald: Bem pagos. Se não, você não baixava o escudo!
Nem com a Pagu, quando você foi professor de piano dela.
Mário: Ela tem espírito de malazartes, mas eu as prefiro belaz!
Acredite nos quadros da Anita, da Tarsila.
Oswald: Ah, aquela Abaporu... só a Pagu podia segui-la.
Não agüento mais a rima! Somos modernistas enfim.
Mário: Bem: você, vá digerir nosso diálogo. Eu, vou comer amendoim.
